Você era insuportável. Na real, nem reparava muito em você, te ignorava como todo o resto. Só que alguma coisa em mim deve ter te chamado a atenção, porque você começou a forçar a barra. Você nem era da minha sala, e vivia lá. Conversava com todo mundo, e ok, às vezes era até engraçado, mas fala sério... se alguém perguntasse se eu iria querer ser amiga de alguém como você, eu diria não. Porque você era alegre demais, divertido demais, irritante, brincalhão. Todos te conheciam, e devo admitir que você foi o primeiro cara que eu conheci que era abertamente seguro de si. Digo num sentido em que tem tantos por aí com uma masculinidade frágil, e você era tão foda-se pra essas coisas. Lembro de quando pintou seu cabelo de rosa. Sério, isso foi incrível, todos só falavam disso. 

Então você pegava uma cadeira e colocava ela do meu lado, e ficava puxando assunto. Eu te olhava de um jeito tão cínico e nada amistoso, algo como, "o que você pensa que está fazendo?". Você perguntava o que eu estava fazendo, e mesmo eu dando respostas monossilábicas, não parava. Então você começou a realmente assistir as aulas do meu lado. Você nem deveria estar ali, caramba... as semanas foram se passando, e de repente já estava até acostumada. Não importa quantas vezes eu tenha te dito pra ficar longe, pra me deixar em paz, pra parar de me seguir, você voltava e não me dava espaço. Acho que nunca me senti tão invadida assim. 

Você ficou com pena de mim, por que eu ficava sozinha? Não precisava. Eu amava meu silêncio, e então você preencheu ele com risadas. De repente, você era tipo meu melhor amigo, e algumas pessoas não entendiam o motivo de você estar sempre ali. Alguns até me perguntavam se a gente tava namorando. Me lembro de alguém comentar da forma como nos olhávamos, sabe? 

Você me fez ficar viciada na sua companhia, e quando menos esperava, lá estava eu torcendo pra você se sentar do meu lado e me contar mais uma das suas histórias. Daríamos risadas, eu desenharia coisas bizarras e sem sentido no meu caderno, você olharia para os desenhos. Então me olharia, com aquele olhar de dúvida, de curiosidade. Você me dava longas olhadas. Eu era uma espécie de desafio pra você? Parecia que você queria entender algo sobre mim, e só não sabia o que. 

Me contou alguns dos seus segredos. Me falou da garota que você gostava, de como ela partiu seu coração e estava com outro. Me lembro de quando ela viu a gente juntos pela primeira vez, a surpresa no rosto dela e a tristeza. Porque você não conseguia mais falar com ela direito, não dava pra falar dos seus sentimentos quando ela te magoou tanto. Você precisava de um tempo, e eu era a pessoa que te fazia sorrir. Acho que isso era bom, sabe? Você estava machucado, apesar de disfarçar, e eu estava... entorpecida. 

Você me convidada pra sair. Você falava de alguns lugares onde a gente iria passear juntos. E por mais que naquele momento eu fosse sua garota favorita, ou assim eu gostava de pensar, você ainda era um galinha. Não fiquei com ciúmes quando você passou a sair com uma menina lá, mas me intrigava o fato de você ficar com ciúmes quando descobriu que eu tinha outros amigos além de você. 


Por mais que você me deixasse calma e me divertisse, eu estava um pouco cansada de toda aquela agitação. Onde você ia, ia uma legião de pessoas, e eu detestava aquelas atenções todas. E então me aproximei de outra pessoa que era tão calma, tão tranquila e divertida, e ele era um ótimo amigo. E você ficou doido com isso. Você parecia odiar toda vez que me via perto dele, e me lembro de quando quase armou um escândalo porque *pasmém*, ele estava do meu lado e você alegou que aquele lugar era seu. 

Você estava tão cheio de merda, isso foi cansativo. Tive que explicar ao meu amigo trocentas vezes que nós não namorávamos, mas que você agia daquele jeito porque era carente de atenção. 

Mas sabe o que foi mais triste? Comecei a gostar de você e foi horrível esse sentimento. Era como se tivesse borboletas no meu estômago, e elas se mexiam demais e me machucavam. Juro, eu queria vomitar, nunca imaginei que gostar de alguém fosse capaz de causar tanto mal físico. Emocional a gente até entende, mas sentir no corpo? Queria acabar logo com aquilo, queria vomitar de uma vez desde que tudo aquilo fosse embora.

Desabafei com uma amiga em comum, e ela me disse pra falar com você. E foi o que eu fiz. Sinceramente, não me lembro se falei pessoalmente, acho que pedi pra ela falar, não sei. Só queria que você soubesse e que ficasse longe de mim. Você ficou surpreso com isso. Primeiro com a revelação de que eu gostava de você mais do que como amigo, e segundo porque eu queria ficar longe. Você entrou em curto e ficou em choque? Eu também fiquei.


E aí a garota que você gostava inicialmente, mas que começou a namorar com outro começou a ir atrás de você. E aí uma outra menina que você nem gostava, mas acabou ficando engravidou e alegava que você era o pai. Você começou a trabalhar na empresa do seu padrasto, acho, e precisou viajar. E o que eu fiz? Fugi de tudo isso. Você estava uma bagunça, precisava de uma amiga, só que eu não podia ser o ombro amigo para o qual você iria correr pra lidar com toda essa bagunça, não dava. Desculpa se fui egoísta, mas era muita coisa.

Eu não conseguia mais ficar do seu lado e fingir que estava tudo bem comigo, porque não estava. Você respeitou meu espaço, pela primeira vez, e parou de ficar por perto. Você me evitava como o diabo foge da cruz, e o que pensei na época? "Ele não deve retribuir meus sentimentos, certo? Se ele gostasse um pouco de mim, ele tentaria falar comigo". Mas agora, eu olho para trás e sim, acho que você gostava de mim. Talvez não da forma como eu queria, mas você gostava tanto que se afastou. Era o momento que você mais precisava de ajuda, e ainda assim não deixou com que nada da sua vida respingasse em mim.

Não faço ideia do que aconteceu depois disso. Sendo bem sincera? Não lembro sequer do seu nome, tamanha a força que fiz pra te apagar da minha história. Mas não acho que isso seja justo com alguém, muito menos comigo. Segui em frente, e faz anos tudo isso. 

Acho que nunca mais iremos nos falar de novo, já faz tanto tempo... Mas queria dizer que, seja lá o que tenha acontecido, espero que esteja bem. Que você esteja feliz. De repente, sei lá, você se casou com a mãe do seu filho e descobriu que amava ela. Ou não sei, de repente resolveu as coisas com a garota que você gostava e vocês finalmente admitiram um para o outro que se amam.

Só queria te agradecer, porque você foi o único cara até hoje que me fez sentir borboletas no estômago. Só consigo sentir algo físico quando já tenho um bom envolvimento emocional com a pessoa, e com você, descobri o quanto sou capaz de sentir - só preciso de alguém que tenha paciência, como você teve comigo.



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