Resenha: O Conto da Aia - Margaret Atwood - Um Remédio Chamado Ler

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Um cantinho legal na internet

20 de dez de 2017

Resenha: O Conto da Aia - Margaret Atwood

Editora: Rocco.
368 páginas.

Insta esclarecer, que O conto da Aia não é um livro feminista como muitos acreditam - Na minha visão de leitor.
O Conto da Aia é  um livro distópico - falarei mais sobre isso ao longo do texto - diferente, por exemplo, dos livros da Simone de Beauvoir e da Chimamanda (Em breve farei resenha sobre "Hibisco roxo" e sobre "Sejamos todos feministas").

Digo isso, pois o conteúdo do livro pode sugerir um certo conteúdo feminista, além de que, Margaret, a autora canadense mais famosa de sua geração, defende o direito igualitário para ambos os sexos. 

O livro fora escrito nos anos 80 (qualquer referência ao livro de George Orwell  é mera coincidência) teve um "hype" em 2016 por causa da Série The handmaid's tale, produzida pelo serviço de streaming Hulu, premiada inclusive com o Emmy de melhor série dramática, entre outros prêmios importantes. E, em abril de 2018, estreara a segunda temporada da aclamada série.

A história do livro se passa num Estados Unidos futurístico com a maioria das mulheres inférteis, devido a grandes guerras e problemas ambientais e nucleares, bem como, doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis. Ocasionando, assim, uma queda da taxa de fertilidade e natalidade. 

"Aias"

Com isso, um grupo de conservadores aplicam um 'golpe' de estado, suspendendo a constituição e criando a república de Gilead. Baseada na premissa bíblica onde Raquel, esposa de Jacó, precisava de filhos. Como costume da época, Jacó deitara-se com Bila, a escrava de Raquel (naquela época os filhos das escravas pertenceriam a sua dona). No caso, o filho de Bila seria filho de Raquel.

Interpretando de forma literal a história bíblica, as mulheres férteis seriam escravizadas para que pudessem gerar filhos para as mulheres ricas inférteis. Além da constituição revogada e a instalação de um regime totalitário, o direito das mulheres também seriam caçados, como o direito a dirigir, a ler e a escrever, ter conta em banco, e direito ao próprio nome.

A partir do momento que as mulheres férteis são "escolhidas" para serem escravas, elas passam por uma lavagem cerebral numa "escola". Nesse instituto, é ensinado que o estupro e os demais abusos seriam consideradas como culpa da vítima, sim, coisa que já acontece no mundo ocidental. 

Mas, aqui os abusos são intensificados, pois, prega-se uma falsa ideia de que a mulher escravizada teria direito a escolha: Ou seria escrava, ou seria prostituta, ou ainda iriam parar nas colônias repletas de lixo tóxico com  expectativa de vida  em torno de três anos. 

Em regra, as mulheres férteis escravizadas, tinham em seu passado uma vida adultera, homossexual, ou de alguma outra forma, uma vida considerada devassa para os novos padrões da sociedade. Caso, a mulher fosse "decente" e fértil ou caso a mulher não pudesse mais gerar filhos, não seriam escravas. Mas sim, seriam "Tias", que teriam como função ensinar a nova vida para as Aias. 

Se a mulher levasse no passado uma vida fora dos padrões, e fosse estéril ou idosa, iriam para as colônias.

Cena da "cerimônia".

No fluxo de consciência da personagem principal, impera o medo de morrer por causa dos lixos tóxicos em face da esperança de encontrar sua antiga vida, mesmo que para isso, seja sujeita a estupros de forma mensal. Sendo preferível assim, a escolha pela segunda opção. Digo, escolha, entre muitas aspas. Mas assim, pensava a personagem principal.

Sem escolhas e longe de sua filha e de seu esposo, a personagem principal do livro (não fica claro qual seria o nome da personagem antes da escravidão) é obrigada a ser escrava na casa do Comandante (nome dos homens ricos) e de sua esposa Serena, na série, sua personagem é humanizada. Pois sim , todas as mulheres são vítimas nessa história.

Cena de mutilação.

O livro é desconfortante e assusta com sua realidade e sua falta de manipulação, em nenhum momento o livro tenta fazer o leitor chorar. Mas, isso é quase impossível. Ao ver uma mãe que sente saudades de sua filha e saudades de sua antiga vida, sendo obrigada a manter relações com um homem e o estupro sendo assistido como uma espécie de cerimônia bíblica, choca. E choca muito.

Além de toda questão da escravidão sexual e da falta de escolhas para com as mulheres férteis, existe uma série de regras. Como a proibição do aborto e da homossexualidade (na série fica mais evidente). A homessexualidade seria penalizada pelo crime de sodomia, comum no oriente médio e em alguns países europeus durante a idade média (Coitado do Oscar Wilde).

No livro fica claro a inexistência de advogados, não existindo assim, o contraditório e ampla defesa, característica de qualquer Estado Democrático de Direito.

A personagem principal do livro, se vê, enfadada a viver naquela casa. Além, de passar por todas as humilhações, a mesma não consegue gerar filhos para sua dona Serena. As escravas há cada dois anos trocariam de casa, sendo necessário nesse prazo, que a mesmas engravidassem, com risco de irem para as colônias .

A série consegue passar a tristeza e o desespero de todas as escravas, ou aias, de modo competente. A fotografia é maravilhosa, a paleta de cores impressiona, a trilha sonora e o roteiro adaptado são excelentes. Todos os acréscimos que ocorrem na série são para atualizar a história e deixar mais completa, pois como o livro é em primeira pessoa, não sentimos as motivações dos outros personagens,tanto a série, como o livro são obras excelentes.

Voltando ao tópico sobre o feminismo do livro e por quais motivos não o considero feminista: Para mim livros de cunho feminista se passam em momentos de certa normalidade, como é o caso de Hibisco Roxo. A história se passa na pós-guerra da Nigéria, mas além desse detalhe, a história é "normal". Não há ditadura, não há nenhum elemento fantástico ou assustador atinentes a distopia. Reiterando, se passa num mundo normal. Diferente do O Conto da Aia.

Lendo distopias clássicas, pude perceber elementos essenciais a toda distopia: Regime totalitário, Proibição a leitura, restrição aos direitos das mulheres, manipulação da mídia e claro, estratificação social. 

No livro 1984 de George Orwel, há todos esses elementos. Mas o principal elemento no livro, é o regime totalitário. Igual ao  O conto da Aia, onde todos são submissos um governo totalitário,porém, o mesmo é desconhecido. Sabemos como foi tomado o poder. Sabemos, também, que a princípio o Estado Islâmico levara a culpa, mas em nenhum momento são dado nome aos bois. 

Isso, também é justificado pela manipulação da mídia, recorrentemente em distopias. Em nenhum momento, as Aias, tem acesso a informações verdadeiras. No livro do George, as informações são manipuladas pelo ministério da verdade.

Já, em Admirável mundo novo de Aldous Huxley, existe uma estratificação social, onde as pessoas são "fabricadas" de acordo com a necessidade do estado bem ao estilo do fordismo.
Sim, produção em massa. 
Já em o O Conto da Aia, a estratificação divide-se em: Comandantes e suas esposas, econoesposas (mulheres pobres e inférteis), Tias, "Jezabeis" (prostitutas) e por fim as Aias.

E por fim, em Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, as pessoas são proibidas de ler. No  O conto da Aia isso também existe. 

Todos os elementos que compõe uma distopia encontra-se no livro O conto da Aia, porém, de forma reduzida. São usados como plano de fundo para o objetivo principal do livro, o elemento da restrição dos direitos das mulheres.

Em todas as distopias citadas, os direitos das mulheres são nulos. Em Admirável mundo novo, o amor é proibido e as mulheres são procuradas como mero pedaços de carne (terno usado no livro). Em 1984, toda relação é considerada clandestina, sendo que há o receio de uma possível denuncia de subversão ao Grande irmão por parte dos companheiros, em especial a mulher, que pasmem, são consideradas como mero objetos. E esses livros não são considerados feministas.

Cada  distopia abarca-se em todos os elementos distópicos, mas sempre tem um que se sobressai. No caso do O Conto da Aia, o que se sobressai é a questão do direitos das mulheres, MESMO estando presente todos os demais elementos. Por esses motivos, não o considero um livro feminista, mas sim uma distopia. Muito bem escrita por sinal.

Essa resenha não tem 5% da intensidade do livro e da série e nem a metade dos infortúnios da Offred durante sua narração (Do Fred - nome do comandante da personagem principal - As Aias, levam o nome de seus donos).

O livro é necessário e leitura obrigatória para quem defende o direito das mulheres (o que deveria ser regra, mas né...), para quem curte uma boa distopia, e para quem tem estômago forte (não é o meu caso hahaha).

Livro excelente. E um dos meus favoritos da vida.




 

15 comentários:

  1. Adorei sua resenha. Nunca tinha lido o livro e para vergonha minha nunca vi a série, porque por alguma razão estranha pensei que era sobre outro tema completamente diferente daquele que é!
    Agora a primeira coisa que fizer quando ligar o Netflix é ver o Handmade Tail! Muito obrigado por ter escrito este belíssimo texto :)

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigado pelo comentário. Infelizmente a série não está disponível na Netflix (ainda). Na vdd não estreou em nenhum serviço de streaming no Brasil. Eu assisti num app para Android, chamado Série TV, gratuitamente. Porém, legendado. Na Netflix,tem uma série baseada em outro livro dela.

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  2. oi!
    Eu adorei a sua resenha e fiquei bem curiosa para ler :D
    bjo

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  3. Parabéns ao escritor desta resenha! Conseguiu passar toda a ideia da serie/livro de forma magnifica!!

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  4. Chocadaaaaaaa estou. Me pergunto aonde estava esse tempo todo que não conhecia essa obra e que nunca tive interesse em saber do que se tratava. E essa resenha mais que perfeita?! Não imaginava nem que tinha adaptação, estou aqui no chão maravilhada com essa obra que parece ser fantástica. Vou por agora mesmo na minha lista de desejados. Parabéns por essa resenha maravilhosa e por me mostrar essa obra. Beijos.

    http://naturezaliteraria.blogspot.com.br

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  5. Menina,corra para ler o livro e depois ver a série. O livro ficou por dias na minha cabeça hahahha.

    A propósito, amei seu blog.

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  6. Tenho lido muitos comentários positivos sobre o livro e a série... Assim que tiver oportunidade gostaria de fazer a leitura e também assistir a série.

    Nara Dias
    Viagens de Papel

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  7. Oiie
    Adoreiii sua resenha. Sou loucaaa pra ler esse livro, deve ser maravilhoso. E se ele é distópico, melhor ainda kkk certeza que vou gostar bastante.
    Bjos, Bya! 💋

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  8. Agora estou cada vez mais ansiosa para ler esse livro, amei demais a resenha ^^

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