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22 de ago de 2018

Bola de Sebo, Geni e a hipocrisia em tempos de apatia.

Por Marcos Nandi
Editora CIA das Lestras, 264 páginas.

Li por agora um livro de contos organizado por Ronaldo Bressane chamado Essa história está diferente que reúne 10 contos para grandes sucessos do Chico Buarque.

Criei muita expectativa, pois a coletânea reunia grandes nomes como Mia Couto, Luis Fernando Veríssimo, entre outros autores brasileiros e estrangeiros consagrados. O livro não me surpreendeu, apesar da minha admiração por Chico Buarque.

Chico (íntimos) é um dos maiores compositores que o Brasil já conheceu, junto com Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Ivan Lins, Milton Nascimento, todos eternizados em vozes como Elis Regina, Nara Leão, Gal Costa e Clara Nunes.

Enfim, Chico Buarque,  é um gênio.

 
Compositor de clássicos como Roda viva, Construção, Atrás da porta (minha música favorita dele), tatuagem e do tema deste post, a música Geni e o Zepelin.

Mas antes de continuar a leitura, recomendo que vocês ouçam a interpretação da incrível Letícia Sabatella no vídeo ao lado.

Essa canção vai contar a história de Geni,   uma prostituta (não sabemos se travesti, mas muita gente diz que sim)   renegada pela sociedade.

O primeiro refrão da música já diz muito sobre o que a população pensava sobre ela

Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!
Sim, a música é pesada e possui conotações sexuais.

Até que em determinado momento, um comandante desceu de seu Zepelim querendo destruir aquela cidade, mas não o faria se Geni passasse uma noite com ele. Diante da negativa da Geni, a população ficou apavorada e implorou por sua bondade.

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!
Ou seja, no momento de dificuldade a população começou a amar essa personagem. Mas, logo após o comandante resolver não destruir a cidade, o povo recomeça a agressão.

Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!
Editora Hedra, 158 Páginas.
Essa música é incrível e foi inspirada no conto Bola de sebo de Guy de Maupassant, um escritor francês conhecido pelos incríveis "Colar de diamante" e o assustador "O Orla".

No conto que dá nome ao livro, Bola de Sebo é o apelido dado pelos populares a uma famosa prostituta. No conto, não sabemos seu nome verdadeiro, apenas o horrível apelido.

O conto, inicia-se, com a Bola de Sebo, numa carruagem com personalidades da elite francesa para uma rápida viagem, mas que é interposta por uma tempestade, deixando todos "a verem navios".

Em todo momento, Bola de Sebo é hostilizada por ser prostituta. Até que a fome chega aos estômagos dos personagens e a única preparada com comida, é a personagem principal do conto. Que com sua extrema bondade, acaba por dividir com aquelas pessoas sua comida.

Chegando ao local do destino, uma pousada, os viajantes descobrem que lá está um comandante - na história, a França estava em guerra com a Alemanha -  E o comandante alemão só deixaria as pessoas saírem de lá, caso a Bola de sebo, se deitasse com ele. 

Ela tinha sua moral e seus princípios e não iria deitar-se com um inimigo de seu país, mas de tanto seus colegas de viagem insistirem, ela deu-se por vencida. 

De volta para a carruagem, para o retorno a seus lares, todos os passageiros estão guarnecidos com comida, menos Bola de Sebo, que saíra de súbito da pousada e esquecera os alimentos para a viagem. Logo ela, que dividira a comida com seus algozes e que deitou-se com um homem contra a sua vontade para ajudá-los.

Ela ficou a passar fome durante todo o trajeto, sem ninguém dividir uma migalha se quer das comidas, terminando o conto com uma lágrima no canto dos olhos por causa da hipocrisia e da ingratidão humana.

Tanto a música do Chico, quanto o conto, são dois estudos sobre a hipocrisia do ser humano. Principalmente, no Brasil. Um país cheio de mazelas sociais,que não encara de frente o pobre e a situação do miserável. 

O conto também faz uma crítica ferrenha, aqueles que se dizem cristãos e pessoas de bem, mas que agridem aqueles que não se enquadram em seus padrões.

Um exemplo clássico de hipocrisia, é que o Brasil é o país mais procura por transexuais em vídeos pôrnos – e o que mais comete crimes transfóbicos nas ruas, outro exemplo bem comum,  temos um discurso extremista para o endurecimento de leis penais,mas roubamos, energia elétrica.

Somos apáticos em um tempo que precisamos de empatia com o próximo. Mas o que fazer em um tempo de apatia, onde o sofrimento do próximo não nos atinge? Ou onde o "defeito" do próximo nos agride até precisarmos da Bola de Sebo, da Geni, da Dandara, Galdino e Amarildo

É de se pensar.
E tanto a literatura, quanto a música, estão aí pra isso.


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